Oi!!!
O site de utilidade pública que eu vou linkar aqui esse mês é o da Abrale. Lá vai:
Um dos assuntos mais polêmicos e mal entendidos no Candomblé é a questão da incorporação. É aquilo que, equivocadamente, algumas pessoas chamam de “receber santo”.
Em 1º lugar, pra quem pegou o bonde andando e não tá entendendo nada do que eu tô dizendo, vamos explicar que o que as pessoas costumam chamar de incorporação seria o espírito de uma pessoa morta entrando no corpo de uma pessoa viva e passando a controlar esse corpo. E aí o espírito fala pela boca da pessoa, gesticula usando o corpo da pessoa e tal.
E também há quem imagine deuses e deusas do Candomblé (geralmente orixás) se manifestando exatamente dessa mesma forma nos corpos dos praticantes do Candomblé.
Quando esse tema surge entre pessoas que não são do Candomblé e não convivem com quem é do Candomblé, vem sempre aquela montoeira de perguntas:
Começam a se questionar se a incorporação existe, se não existe, se é um fenômeno real, se é só uma alucinação que a pessoa tem na hora por causa de influências psicológicas que sofreu, se a pessoa está simplesmente fingindo...
Bom, como seguidor da Tradição Queto do Candomblé, vou tentar responder essas perguntas uma por uma:
Antes de mais nada, vamos esclarecer se a incorporação existe ou não existe: existe, sim. Mas não da forma como as pessoas costumam imaginar.
Vamos deixar claro que O ESPÍRITO DE UMA PESSOA MORTA NÃO TEM PODER PRA CONTROLAR O CORPO DE UMA PESSOA VIVA. Portanto, o espírito de um morto não pode entrar no corpo de um vivo e sair andando por aí e movendo esse corpo como se o corpo fosse dele. Se algum candomblecista ensinou isso a você, ele tá meio equivocado. Devia estudar mais os mitos originais africanos: nunca vi nenhum desses mitos mencionar nada que atribua esse tipo de poder de possessão aos espíritos dos mortos.
Aliás, quem acredita nessas possessões geralmente é kardecista, e não candomblecista. Mas tem gente que é ecumênica, né? Aí mistura Candomblé com Kardecismo, com Catolicismo, com Budismo... E o que acontece na prática quando alguém tenta seguir várias religiões diferentes ao mesmo tempo é que ele acaba misturando os dogmas de uma religião com os dogmas da outra.
Talvez a confusão venha daí, né? Uma pessoa que se diz candomblecista, mas que na prática é um ecumênico, acaba seguindo dogmas de outras religiões e passando a ideia equivocada de que aqueles dogmas são do Candomblé.
Pelo menos de acordo com as pesquisas do Pierre Verger sobre as tradições originais do Candomblé, o que fica claro é que, quando o espírito de um morto quer se manifestar diante de um vivo, ele aparece pra esse vivo na forma de uma imagem mesmo, e não através de uma incorporação.
Mas e quanto às divindades? Os espíritos dos mortos não podem se incorporar nos vivos, mas os deuses e deusas podem fazer isso?
Bom, aí pode ser que sim e pode ser que não.
Antes de tudo, vamos lembrar que os deuses e deusas não têm um corpo limitado como o nosso. Os corpos físicos deles são o fogo, a água, o ar e a terra, que estão presentes pelo Universo todo. Mas, ao mesmo tempo, eles também têm as energias deles, que são extensões dos corpos deles.
As energias dos deuses e deusas do Candomblé podem entrar nos nossos corpos e nos controlar momentaneamente. Mas o que o corpo da pessoa faz nessas ocasiões geralmente são só movimentos que demonstram a presença daquela energia naquele corpo ou a pronúncia de palavras que indicam isso.
Por isso que, nas cerimônias do Candomblé, a gente vê algumas pessoas dançando e, involuntariamente, fazendo movimentos que são reconhecidos como os movimentos de uma divindade específica e falando palavras (algumas vezes, palavras de dialetos nigerianos) associadas àquela divindade específica.
O site de utilidade pública que eu vou linkar aqui esse mês é o da Abrale. Lá vai:
Bom, vou deixar o post de hoje só em Português porque ficaria meio complicado traduzir esse texto pra outras línguas. É sobre a incorporação no Candomblé.
Um dos assuntos mais polêmicos e mal entendidos no Candomblé é a questão da incorporação. É aquilo que, equivocadamente, algumas pessoas chamam de “receber santo”.
Em 1º lugar, pra quem pegou o bonde andando e não tá entendendo nada do que eu tô dizendo, vamos explicar que o que as pessoas costumam chamar de incorporação seria o espírito de uma pessoa morta entrando no corpo de uma pessoa viva e passando a controlar esse corpo. E aí o espírito fala pela boca da pessoa, gesticula usando o corpo da pessoa e tal.
E também há quem imagine deuses e deusas do Candomblé (geralmente orixás) se manifestando exatamente dessa mesma forma nos corpos dos praticantes do Candomblé.
Quando esse tema surge entre pessoas que não são do Candomblé e não convivem com quem é do Candomblé, vem sempre aquela montoeira de perguntas:
Começam a se questionar se a incorporação existe, se não existe, se é um fenômeno real, se é só uma alucinação que a pessoa tem na hora por causa de influências psicológicas que sofreu, se a pessoa está simplesmente fingindo...
Bom, como seguidor da Tradição Queto do Candomblé, vou tentar responder essas perguntas uma por uma:
Antes de mais nada, vamos esclarecer se a incorporação existe ou não existe: existe, sim. Mas não da forma como as pessoas costumam imaginar.
Vamos deixar claro que O ESPÍRITO DE UMA PESSOA MORTA NÃO TEM PODER PRA CONTROLAR O CORPO DE UMA PESSOA VIVA. Portanto, o espírito de um morto não pode entrar no corpo de um vivo e sair andando por aí e movendo esse corpo como se o corpo fosse dele. Se algum candomblecista ensinou isso a você, ele tá meio equivocado. Devia estudar mais os mitos originais africanos: nunca vi nenhum desses mitos mencionar nada que atribua esse tipo de poder de possessão aos espíritos dos mortos.
Aliás, quem acredita nessas possessões geralmente é kardecista, e não candomblecista. Mas tem gente que é ecumênica, né? Aí mistura Candomblé com Kardecismo, com Catolicismo, com Budismo... E o que acontece na prática quando alguém tenta seguir várias religiões diferentes ao mesmo tempo é que ele acaba misturando os dogmas de uma religião com os dogmas da outra.
Talvez a confusão venha daí, né? Uma pessoa que se diz candomblecista, mas que na prática é um ecumênico, acaba seguindo dogmas de outras religiões e passando a ideia equivocada de que aqueles dogmas são do Candomblé.
Pelo menos de acordo com as pesquisas do Pierre Verger sobre as tradições originais do Candomblé, o que fica claro é que, quando o espírito de um morto quer se manifestar diante de um vivo, ele aparece pra esse vivo na forma de uma imagem mesmo, e não através de uma incorporação.
Mas e quanto às divindades? Os espíritos dos mortos não podem se incorporar nos vivos, mas os deuses e deusas podem fazer isso?
Bom, aí pode ser que sim e pode ser que não.
Antes de tudo, vamos lembrar que os deuses e deusas não têm um corpo limitado como o nosso. Os corpos físicos deles são o fogo, a água, o ar e a terra, que estão presentes pelo Universo todo. Mas, ao mesmo tempo, eles também têm as energias deles, que são extensões dos corpos deles.
As energias dos deuses e deusas do Candomblé podem entrar nos nossos corpos e nos controlar momentaneamente. Mas o que o corpo da pessoa faz nessas ocasiões geralmente são só movimentos que demonstram a presença daquela energia naquele corpo ou a pronúncia de palavras que indicam isso.
Por isso que, nas cerimônias do Candomblé, a gente vê algumas pessoas dançando e, involuntariamente, fazendo movimentos que são reconhecidos como os movimentos de uma divindade específica e falando palavras (algumas vezes, palavras de dialetos nigerianos) associadas àquela divindade específica.
E o que está incorporado em cada uma dessas pessoas é a energia dessa divindade.
Então, a incorporação existe como fenômenos real NESSE sentido. Mas nem sequer acontece com todos os praticantes do Candomblé. Eu, por exemplo, fui praticante do ano 2000 até 2005, voltei a ser no ano passado e nunca tive uma incorporação.
Outra dúvida bastante comum, como eu já mencionei acima, é se a pessoa não está ali simplesmente sob o efeito de uma influência psicológica. Ou seja, ela viu e ouviu coisas que fazem com que ela pense, inconscientemente, que está com um espírito ou um deus incorporado nela. E aí se comporta como se estivesse.
Sim. Isso também existe. Porque tem pessoas que são sugestionáveis, né? Principalmente se for aquela pessoa muito sentimental, que se deixa levar por tudo o que vê e ouve. Quando ela ouve você falando sobre qualquer coisa que impressione ela de alguma forma, do nada ela já começa a acreditar que aquilo está acontecendo com ela ou vai acontecer com ela a qualquer momento.
Então, se esse tipo de pessoa ouve falar em incorporação ou vê pessoalmente uma incorporação real, daí pra ela começar a acreditar, sem querer, que tá tendo uma incorporação é um pulinho.
E outra dúvida que fica é se a pessoa está simplesmente fingindo que está incorporando um espírito ou uma divindade.
Também existe. Mas aí tem gente que tá simplesmente de sacanagem, fingindo que está tendo uma incorporação porque quer debochar da religião, e também tem gente que está de má fé, fazendo isso pra cobrar por consultas que a “divindade” ou o “espírito” dá enquanto está incorporado.
Eu posso dizer o seguinte: se a pessoa está cobrando dinheiro pela consulta que ela dá enquanto diz que está incorporada, comece a desconfiar disso. Principalmente se ela disser que está com um espírito incorporado nela pra dar consultas (porque, como eu já expliquei acima, espírito não se incorpora em ninguém e, menos ainda, vai se incorporar em alguém pra dar consultas aos vivos e cobrar dinheiro por isso).
Babaca existe em toda parte e gente desonesta também existe em toda parte. Então, simplesmente fique de olho.
E pra terminar, quero dizer o seguinte: “receber santo” é uma expressão completamente descabida.
Em 1º lugar, santos são divindades do Catolicismo, e não do Candomblé em sua origem (portanto, não vão se incorporar num candomblecista). E em 2º lugar, até onde eu conheço os princípios do Catolicismo, os católicos também não acreditam que o espírito de um morto possa se incorporar num vivo (portanto, os santos, que são simplesmente espíritos de católicos mortos, não podem fazer isso).
Bom, creio que são essas as dúvidas que a maioria das pessoas tem sobre a questão da incorporação no Candomblé. Mas, se alguém quiser perguntar mais alguma coisa, estou à disposição pra conversar sobre o assunto.
Eu volto em Abril. Até lá!
Então, a incorporação existe como fenômenos real NESSE sentido. Mas nem sequer acontece com todos os praticantes do Candomblé. Eu, por exemplo, fui praticante do ano 2000 até 2005, voltei a ser no ano passado e nunca tive uma incorporação.
Outra dúvida bastante comum, como eu já mencionei acima, é se a pessoa não está ali simplesmente sob o efeito de uma influência psicológica. Ou seja, ela viu e ouviu coisas que fazem com que ela pense, inconscientemente, que está com um espírito ou um deus incorporado nela. E aí se comporta como se estivesse.
Sim. Isso também existe. Porque tem pessoas que são sugestionáveis, né? Principalmente se for aquela pessoa muito sentimental, que se deixa levar por tudo o que vê e ouve. Quando ela ouve você falando sobre qualquer coisa que impressione ela de alguma forma, do nada ela já começa a acreditar que aquilo está acontecendo com ela ou vai acontecer com ela a qualquer momento.
Então, se esse tipo de pessoa ouve falar em incorporação ou vê pessoalmente uma incorporação real, daí pra ela começar a acreditar, sem querer, que tá tendo uma incorporação é um pulinho.
E outra dúvida que fica é se a pessoa está simplesmente fingindo que está incorporando um espírito ou uma divindade.
Também existe. Mas aí tem gente que tá simplesmente de sacanagem, fingindo que está tendo uma incorporação porque quer debochar da religião, e também tem gente que está de má fé, fazendo isso pra cobrar por consultas que a “divindade” ou o “espírito” dá enquanto está incorporado.
Eu posso dizer o seguinte: se a pessoa está cobrando dinheiro pela consulta que ela dá enquanto diz que está incorporada, comece a desconfiar disso. Principalmente se ela disser que está com um espírito incorporado nela pra dar consultas (porque, como eu já expliquei acima, espírito não se incorpora em ninguém e, menos ainda, vai se incorporar em alguém pra dar consultas aos vivos e cobrar dinheiro por isso).
Babaca existe em toda parte e gente desonesta também existe em toda parte. Então, simplesmente fique de olho.
E pra terminar, quero dizer o seguinte: “receber santo” é uma expressão completamente descabida.
Em 1º lugar, santos são divindades do Catolicismo, e não do Candomblé em sua origem (portanto, não vão se incorporar num candomblecista). E em 2º lugar, até onde eu conheço os princípios do Catolicismo, os católicos também não acreditam que o espírito de um morto possa se incorporar num vivo (portanto, os santos, que são simplesmente espíritos de católicos mortos, não podem fazer isso).
Bom, creio que são essas as dúvidas que a maioria das pessoas tem sobre a questão da incorporação no Candomblé. Mas, se alguém quiser perguntar mais alguma coisa, estou à disposição pra conversar sobre o assunto.
Eu volto em Abril. Até lá!

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