terça-feira, 30 de agosto de 2011

NA VIDA SEXUAL DE UM PAGÃO O QUE PODE E O QUE NÃO PODE?

Oi!!!

Como eu já disse várias vezes aqui no blog, sou pagão. E hoje eu vou falar aqui sobre a questão da sexualidade entre os pagãos.
Não é novidade pra ninguém que nas religiões judaico-cristãs (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) o sexo, em maior ou menor grau, é visto como pecado. Principalmente no Cristianismo, os assim chamados “pecados da carne”, ou seja, as atitudes ligadas a sexo que são vistas como pecados (masturbação, sexo fora do casamento, homossexualidade...), são sempre tratadas com mais intolerância e com mais repúdio do que atitudes de outras áreas da vida que também são vistas como pecados.
Por exemplo: se você chegar numa igreja e contar que matou alguém, o que vão responder pra você lá é que você já está perdoado, desde que você tenha se arrependido; se você chegar nessa mesma igreja e contar que se masturbou, vão responder que você já está no caminho do Inferno. Isso se não disserem que você já está no Inferno (cometeu um pecado da carne→ já tá com a vaga reservada no Inferno).
Então, embora a Bíblia também faça longos discursos contra outros tipos de pecado, a obsessão principal dos cristãos é falar contra os tais “pecados da carne”. Mesmo que algum cristão chegue e diga que os cristãos que falam isso estão equivocados, que não era isso que Jesus queria, pode até não ter sido isso que Jesus queria, mas é assim que a gente vê os cristãos se comportando na prática.
Mas entre os pagãos é diferente?
É diferente, sim. Mas a gente tem que tomar cuidado antes de seguir em frente com essa conversa: quando alguém fala “os pagãos”, está se referindo a todas as pessoas que seguem todos os tipos de religião que não são de origem judaico-cristão (Budismo, Candomblé, Druidismo, Helenismo, Hinduísmo, Vodu, Wicca, Xintoísmo...). E aí são religiões das mais variadas origens e que seguem os mais variados dogmas. Consequentemente, a forma como o sexo é visto por essas religiões também varia extremamente de uma pra outra. Mas há um ponto em comum: em nenhuma dessas religiões o sexo é visto como algo pecaminoso, que leva ao Inferno e que tem que ser visto como pior do que qualquer outra coisa do Mundo.
E os pagãos também têm por princípio respeitar o livre arbítrio da outra pessoa, enquanto, entre os cristãos, a gente vê muito mais a defesa do proselitismo (obrigar a outra pessoa a levar um estilo de vida cristão, mesmo que ela não queira).
Posta essa pequena introdução, eu, como praticante do Candomblé, vou explicar os dogmas relacionados a sexo no grupo religioso do qual eu faço parte.
Quero lembrar que o Candomblé tem várias tradições diferentes. Como eu sigo a Tradição Queto, vou explicar os dogmas seguidos por essa tradição. É claro que um candomblecista que siga outra tradição provavelmente vai discordar de algumas coisas que eu vou dizer aqui.
E mais outra coisa (meio bizarra) é que alguém que se diz candomblecista ainda é capaz de dizer:

“Ah, mas isso é pecado!”

Isso se é que não vai dizer:

“Ah, mas o papa falou que isso é pecado!”

Bom, quem disser qualquer coisa parecida com isso não é um candomblecista; é um católico que usa uma maquiagenzinha de candomblecista. Papas, bispos, cardeais, padres, freiras e adjacências têm autoridade no Catolicismo Romano, mas não no Candomblé. Só que, como existem grupos catolicizados de Candomblé, infelizmente tem gente que acaba embarcando nas palavras dessas criaturas.
Mas enfim: quero lembrar também que eu fui praticante do Candomblé por 5 anos (de 2000 até 2005) e agora voltei. Então, não é um assunto que eu desconheço nem que eu comecei a estudar agora. E além disso, eu não vou dizer nada aqui inventado por mim: nós seguimos os ensinamentos do Pierre Verger, que é visto na Tradição Queto como o organizador do Candomblé. Foi ele que, através de vários estudos, definiu o que são os mitos originais africanos e o que são as lendas populares criadas sobre a religião (geralmente criadas já aqui no Brasil).
Agora vamos ver como o Candomblé Queto se posiciona em relação às seguintes situações relacionadas a sexo:

VIRGINDADE→ Não localizei nenhum mito reconhecido pelo Pierre Verger que mencione a questão da virgindade. Assim, não há nada que obrigue nem que proíba um candomblecista de ser virgem. É algo que só a própria pessoa pode decidir, seguindo o livre arbítrio dela.
Entretanto, temos que lembrar que, se a pessoa está mantendo um relacionamento com outra pessoa, esse assunto tem que ser conversado e esclarecido ainda no início do relacionamento.
É claro que, se há concordância (se as 2 pessoas querem viver um relacionamento sem sexo ou se as 2 pessoas querem transar), não há problema nenhum. Mas e se uma quer ficar virgem e a outra quer transar? Bom, aí o que se pode sugerir é que ambas conversem bastante sobre o assunto e decidam consensualmente o que fazer. Afinal, seguindo o livre arbítrio de ambas, uma tem o direito de se manter virgem se é isso que ela quer, mas a outra também tem o direito de ter vida sexual ativa se é isso que ela quer.

NUDEZ→ Também não localizei nenhum mito reconhecido pelo Pierre Verger que fale especificamente sobre nudez. Mas como essa é uma questão mais estética, se pode tirar conclusões inspiradas nas próprias imagens feitas pra representar as divindades do Candomblé.
Não é difícil ver que tanto os quadros quanto as estátuas dos deuses e deusas (por mais variadas que sejam as origens desses quadros e estátuas) mostram eles, na maioria das vezes, com pouca roupa, mas nunca sem roupa nenhuma. Nesse último caso, a única exceção, às vezes, é Exu (já vou explicar por quê).
O que se pode entender disso é que não existe nada que proíba um candomblecista de usar pouca roupa. Mas não usar roupa nenhuma também não é o ideal. Há certas partes do corpo que têm que ficar cobertas, pelos menos durante a maior parte do tempo.
Obviamente, nenhum cérebro pensante vai falar contra a nudez total de uma pessoa na hora de trocar de roupa, na hora de tomar banho, na hora de transar... Enfim, desde que a nudez total condiga com a situação em que a pessoa de encontra, não há problema.
É bom lembrar que alguns mitos advertem pra que se tome cuidado com o excesso de roupas que a outra pessoa esteja usando. Afinal, quando a pessoa está usando mais roupas do que seria comum naquela ocasião, provavelmente ela está querendo esconder alguma coisa.
Isso tudo nos mostra simplesmente que a quantidade de roupa que um candomblecista usa e as partes do corpo que devem ficar cobertas ou descobertas devem condizer com a ocasião em que ele se encontra.
E Exu, como eu disse acima, algumas vezes é representado nu. Eventualmente, até com o pênis ereto.

Como eu mencionei num post que fiz em Fevereiro, em algumas tribos ele é representado até como um pênis ereto sem corpo. Mas isso acontece por um motivo muito simples: ele é o deus do sexo. A nudez dele, ou simplesmente a exposição do pênis ereto dele, representa tão somente o sexo, que é a força associada a ele.
Então, a nudez de Exu é um caso específico: não dá pra levar ao pé da letra.

MASTURBAÇÃO→ Também não há nenhum mito reconhecido pelo Pierre Verger, pelo menos que eu tenha conseguido localizar, que mencione masturbação.
Assim sendo, como não há nada contra nem a favor desse assunto, é algo que só a própria pessoa pode decidir se deve fazer ou não.

CASAMENTO→ Os mitos mostram claramente que o casamento deve ser realizado somente entre 2 pessoas.
A poligamia masculina, ou seja, um homem ser casado reconhecidamente com várias esposas ao mesmo tempo, aparece em vários mitos. Mas em quase todos, é mostrada como algo que não dá certo: mais cedo ou mais tarde, em maior ou menor grau, a desarmonia, a discórdia e a rivalidade acabam por se instalar entre as esposas, o que sempre tem resultados bem ruins.
Assim, nota-se que a poligamia costuma ser retratada como um anti-exemplo, como algo que não se deve fazer. E portanto, podemos considerar o casamento poligâmico como proibido no Candomblé.
Quanto ao adultério ocasional, são poucos os mitos que mencionam o assunto. E quando se fala sobre isso, geralmente há uma vingança envolvida, como num mito que conta que Ogum decidiu seduzir Iansã, Oxum e Obá como forma de humilhar Xangô, já que essas 3 deusas são esposas de Xangô.
Assim, o Candomblé não se preocupa muito com a questão do adultério ocasional, manifestado como um contato sexual eventual com outra pessoa. E portanto, esse assunto fica mais à disposição do senso de moral de cada pessoa e do nível de fidelidade que ela pretende dedicar à pessoa com quem ela é casada.
E em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo no Candomblé (e não é preciso pesquisar muito na Internet pra encontrar registros de várias cerimônias desse tipo já realizadas no Brasil), também não há nenhum mito que proíba. E quanto a ética em relação ao comportamento dentro do casamento homossexual, vai ser exatamente a mesma que eu descrevi acima, no casamento heterossexual.

INCESTO→ Embora vários mitos mencionem situações que, à 1ª vista, podem parecer incestuosas, logo depois, já dá pra perceber que não é bem isso.
O que ocorre é que o parentesco entre as divindades do Candomblé não é fixo: um mito retrata um deus e uma deusa como marido e esposa, outro mito retrata esse mesmo deus e essa mesma deusa como irmão e irmã, outro mito retrata esse mesmo deus e essa mesma deusa como pai e filha, outro mito retrata esse mesmo deus e essa mesma deusa como mãe e filho... Então, se nem sequer se pode definir um parentesco, não há como se falar em incesto.
Já que os mitos não definem nada de forma fixa sobre esse assunto, os candomblecistas podem fazer o que quiserem aí? Nesse caso, não. Por causa do livre arbítrio.
Um contato sexual incestuoso entre um homem e uma mulher pode produzir um filho com problemas físicos e/ou mentais. Então, se você gera um filho através de um incesto, você está praticamente condenando essa pessoa a ter problemas físicos e/ou mentais. Em outras palavras, você está atentando contra o livre arbítrio dessa pessoa, obrigando essa pessoa a nascer em condições que, provavelmente, ela não gostaria de nascer.
Mas, se não há possibilidade nenhuma de nascer filho nenhum dessa relação, aí não tem problema. Porque, como já vimos, os mitos acabam por não definir nada sobre esse assunto. Então, não há proibição.
Podemos simplificar dizendo que a reprodução incestuosa é proibida, mas o sexo incestuoso, sob a condição de que seja um sexo indiscutivelmente estéril, é permitido.

HOMOSSEXUALIDADE e BISSEXUALIDADE→ Mitos que falam sobre homossexualidade e bissexualidade são algo um tanto inexato, já que várias divindades do Candomblé não têm sexo definido: a mesma divindade aparece em alguns mitos como um deus masculino e em outros mitos como uma deusa feminina. Aroni, Logun Edé, Odudua, Olocum, Ossãe e Oxumaré, por exemplo, são divindades que se apresentam com essa variação de sexo de um mito pro outro.
Então, relacionamentos amorosos dessas divindades mencionados pelos mitos podem ser vistos tanto como relacionamentos heterossexuais quanto homossexuais. É algo que não tem como ser definido de forma exata.
Mas não há nenhum mito que proíba o sexo entre homens nem entre mulheres.

PORNOGRAFIA e PROSTITUIÇÃO→ Também não localizei nenhum mito reconhecido pelo Pierre Verger que mencione sexo em troca de uma remuneração, ou seja, prostituição. Mas nesse caso, temos que lembrar que a prostituição muitas vezes não é um ato voluntário, mas sim o resultado da exploração de uma pessoa contra outra. Em outras palavras, a pessoa que se prostitui muitas vezes não está fazendo isso porque quer ou porque foi o método que encontrou pra ganhar dinheiro, mas sim porque alguém obriga ela a se prostituir e muitas vezes ainda fica com o dinheiro (todo ou quase todo) que ela obteve se prostituindo.
Se é isso que está acontecendo, a pessoa que está cometendo essa exploração está cometendo um atentado contra o livre arbítrio da outra pessoa. Então, é claro que não é algo aceitável no Candomblé.
Se a pessoa está se prostituindo porque quer ou porque não arranjou outra forma de se sustentar (mas ainda assim está agindo de forma voluntária) e se ela não está obrigando ninguém a fazer o mesmo, aí é ela mesma quem tem que saber se deve ou não seguir em frente. Porque, nesse caso, não há nenhum dogma que proíba nem que incentive que ela siga por esse caminho.
Se faz necessário lembrar que a prostituição é um caminho repleto de perigos, como risco de contágio de doenças, risco de sofrer violência e outros riscos. Mas, se mesmo depois de pensar bem sobre isso a pessoa ainda assim quis seguir em frente por vontade própria, é o livre arbítrio dela que manda.
Quanto à pornografia, ou pelo menos o que se chama atualmente de “pornografia”, é algo que nem existia na África Antiga. Então é um assunto que pode ser visto como algo que está ainda mais distante dos dogmas do Candomblé.
Mas, como pornografia é um assunto relativamente parecido com prostituição, podemos usar a mesma ética que eu descrevi acima pra lidar com esse assunto.

SEXO COM ANIMAIS→ Uma das proibições mais claras em relação ao comportamento sexual é o sexo entre humanos e animais.
Há um mito que mostra de forma bastante explícita o quanto Xangô se enfureceu numa ocasião em que encontrou uma mulher transando com um carneiro.
Então, claramente, esse é um comportamento sexual que desagrada os deuses.

SEXO COM CRIANÇAS→ Uma proibição que os mitos deixam bastante clara é a questão das agressões físicas cometidas contra crianças. Mesmo nos piores momentos da ira dos deuses, as crianças são poupadas. Quando os deuses estão irados, eles podem até matar todos os adultos que estão presentes, mas sempre mantêm as crianças intocadas.
E é praticamente impossível que um adulto tenha uma relação sexual com uma criança sem ferir a criança, né? Até por uma questão de diferença de força física.
Aliás, em muitas vezes em que isso acontece, na prática é uma forma de estupro, pois, geralmente, a criança não quer fazer isso.
Nesse caso, são 2 proibições que estão sendo violadas pelo adulto que faz isso, já que, além de ferir a criança, ele também está atentando contra o livre arbítrio da criança.
Se esse é um ato que viola 2 proibições, quem fizer isso vai receber o castigo dos deuses em dobro.

Bom, em linhas gerais, essa é a visão que a Tradição Queto do Candomblé tem sobre o comportamento sexual dos seus membros.
Não vou traduzir esse post pra outras línguas porque, se eu dividisse o texto em 3 e traduzisse cada parte pruma língua diferente, ficaria incompleto e sem sentido; e se eu traduzisse o texto TODO pra outras línguas, ficaria um post gigantesco. Então, hoje vou abrir uma exceção e não fazer traduções.
Eu volto em Setembro.

Até lá!

4 comentários:

Fred disse...

Ai. Acho que vou precisar de tradução... hehehe! Mas comigo - na dúvida - prefiro pecar sempre. Hehehehe! Sim, 35 aninhos! Pode??!? Hugzzzz e até setembro!

Leo Carioca disse...

Pois é. E eu acabei de sair dos 35 anos.rs

Unknown disse...

Leo, muito bacana teu texto. Na verdade, acho que a grossas linhas, tudo gira em torno de uma questão essencial na qual conversava com alguns colegas de trabalho há certo tempo (e Mircea Eliade) também comenta sobre: as religiões patriarcais ou monoteístas vêem um Deus que fica no céu, ou seja, o foco da religião será o espiritual e a crença no pós-vida. Já no politeísmo a questão se inverte, e é a carne, a vida física e o êxtase qu são evidenciados...

As pessoas chamam isso de evolução. Eu chamo isso de afastamento.

Abração!

PS: Já que vc escreve sobre temas tão diversos, não seriam melhor organizar blogs diferentes?

Leo Carioca disse...

Bom, deve ser por isso que os cristãos amaldiçoam tanto o Mundo e chamam tanto as coisas que eles odeiam de ´´coisas do Mundo``, né? Pra eles, o Mundo é uma coisa amaldiçoada e o Céu é só o que tem valor.
Bom, a minha intenção com os meus blogs é exatamente criar espaços de entretenimento e cultura. Então, por isso mesmo, boto tudo num blog só. Aí quem vem aqui encontra entretenimento e cultura sobre os mais variados assuntos.
Aposto que muita gente que já entrou aqui entrou procurando uma coisa e acabou vendo um post sobre outro assunto, se interessando e lendo, né?
Mas realmente, os meus blogs têm um pouco de tudo.rs
Abração também!