sábado, 7 de maio de 2011

AS VALENTINAS DA VIDA REAL

Oi!!!

O post de hoje vai ser só em Português porque mostra uma situação específica da sociedade brasileira.

Escolhi o dia de hoje propositalmente pra falar sobre o assunto, já que amanhã (2º Domingo de Maio), na maioria dos países, é comemorado o Dia das Mães.

Bom, como a maioria de vocês devem saber, a exploração sexual de menor foi um dos temas abordados pela novela Passione, exibida até o início do ano pela Globo.

Na novela, a personagem Valentina obrigava as netas adolescentes a se prostituírem e ficava com todo o dinheiro do serviço. E até tentou vender uma das netas pra ser usada como escrava sexual por um fazendeiro pedófilo.

Bom, a novela até que pegou leve ao abordar esse assunto, porque geralmente, quando esse tipo de crime acontece, a coisa é bem mais barra pesada do que isso... É claro que quem tem uma visão idealizada do que é uma família deve pensar que é impossível uma avó obrigar uma neta adolescente a se prostituir contra a própria vontade e ainda ficar com o dinheiro todo. Mas na vida real, que geralmente tá bem distante da visão idealizada que essas pessoas têm, você não precisa pesquisar muito pra encontrar casos de pais (não é nem de avós) que cometem esse crime até contra bebês recém-nascidos (não é nem só contra adolescentes)!

Eu vi numa pesquisa que eu fiz que, no interior do Pará, já foram registrados vários e vários casos de pais que prostituem as filhas menores ou até que vendem as filhas menores, como mercadoria, pra serem usadas em bordeis e adjacências. Mas é claro que essa situação também já foi vista nas demais regiões do Brasil. E eu tô usando o exemplo de filhas mulheres porque é o mais comum, mas acontece numa quantidade menor com filhos homens também, é claro.

Agora vejam só: quando é o pai que obriga a filha menor a se prostituir, todo mundo cai em cima dele:

“Ele não presta! Ele é um monstro! Ele tem que apodrecer na cadeira!”

É claro! Eu concordo, com certeza. Mas por que a reação pública só é violenta a esse ponto quando é o pai que comete esse crime?

Quando é a mãe que obriga a filha menor a se prostituir ou que vende a filha pra ser explorada dessa mesma forma, é claro que, no início, todo mundo cai em cima dela. Mas, não muito tempo depois, o que a gente ouve sobre o assunto é alguma coisa mais ou menos assim:

“Ela não devia ter feito isso, mas... Coitada! É mãe, né? Se ela fez isso, ela fez pensando no bem da filha de alguma forma, coitada!”

Como uma quantidade considerável de mulheres que praticam esse tipo de crime são de classe social pobre, também tem sempre alguém que chega e fala:

“Ah! Coitadinha! Pobrezinha! A mulher que faz isso com as filhas não faz por mal! É que ela tem que sobreviver! Prostituir as filhas é a única fonte de lucro dela! Coitadinha! Pobrezinha!”

Ou:

“Ah! Coitadinha! Pobrezinha! Ela não faz por mal! É que, como ela é pobre, ela já sofreu tanto na vida dela, ela teve uma infância e uma adolescência tão difíceis... Ela nem percebe que tá fazendo mal à filha quando obriga a filha a fazer isso! Coitadinha! Pobrezinha!”

Outra coisa: se uma garota que foi explorada sexualmente pelo pai não perdoa ele pelo que ele fez, ninguém fala nada e dão razão a ela (o que, aliás, eu acho bastante justo e dou razão a ela também); mas se a garota foi explorada sexualmente pela mãe e não perdoa a mãe pelo que ela fez, tem sempre alguém que chega e diz pra garota:

“Eu sei que ela fez coisas que não devia ter feito com você, mas... Coitada! É mãe, né? Mãe é mãe! Você devia perdoar e esquecer.”

Por mais absurdo que esse conselho seja, quem fala isso tá simplesmente seguindo a tendência da sociedade brasileira de pensar na mãe como um ser imaculado, imune ao mal, que só faz tudo o que faz querendo o bem dos filhos... Então, por mais bizarra e por mais aberrante que seja a atitude que uma mãe toma, mesmo que uma mãe tome qualquer atitude ilícita (leia-se: CRIME), é só ela dizer que só fez isso pelo bem do filho que todo mundo acha o máximo o que ela fez. E ainda falam coisas do tipo:

“Ela não devia ter feito isso, mas... Ah, coitada! Ela só pensou no bem do filho. Mãe é assim mesmo, né? Mãe nunca faz nada por mal.”

É bom lembrar que a mãe em questão, ao não ser perdoada pela filha, geralmente fala alguma coisa mais ou menos assim:

“Eu me sacrifiquei tanto por essa menina e ela não quer nem saber de mim! É uma ingrata! Filho não gosta de mãe! Mãe é que gosta de filho!”

Na própria novela Passione, a personagem que eu mencionei falava frequentemente frases bem parecidas com essas ao não ser perdoada pelas netas.

Agora, qual é a parte mais perigosa dessa história toda? Vamos ver:

Quando fica comprovado que os pais exploravam sexualmente a filha menor, os pais perdem a guarda da filha, a filha é encaminhada pra algum conselho tutelar e de lá pra alguma instituição que abriga menores nesses casos. E os pais, quando a lei é cumprida, são obrigados a pagar multa e também condenados a uma pena de 4 a 10 anos de reclusão.

Só que, se a filha ainda for menor de 18 anos quando a mãe sair da prisão, a mãe pode arranjar lá um advogadozinho de porta de cadeia e entrar com um pedido de guarda da filha. E ganha! Não tenham dúvida! Ela pode até perder na 1ª vez em que ela fizer o pedido de guarda. Mas, se ela recorrer da decisão do juiz, der uma choradinha na frente do juiz e passar uma imagenzinha de ‘regenerada’, menos da metade dos juízes brasileiros vão ser justos o suficiente pra negar que ela tenha de volta a guarda da filha.

E aí, como a novela também mostrou, muitas vezes volta a acontecer de novo tudo o que já acontecia antes, enquanto todo mundo continua falando:

“Coitada! O que passou, passou. A mãe não fez aquilo por mal! Imagina! A filha vai ficar melhor com a mãe do que com qualquer outra pessoa!”

É desnecessário lembrar que isso só vai acontecer no caso da mãe. Se o pai que explorava a filha sair da prisão quando a filha ainda é menor de 18 anos e se ele tentar conseguir a guarda da filha nesse mesmo tipo de caso, ele simplesmente não vai chegar muito longe. Provavelmente, nem vai passar dos planos iniciais. E o pai vai ficar estigmatizado pra sempre como “explorador de criança”. E eu acho muito justo que fique mesmo.

Se houvesse justiça, a mãe também ficaria, mas...

O mais grotesco disso é que, depois de ver essa supervalorização das mães, esse endeusamento das mães, essa obsessão em inocentar as mães na sociedade brasileira, e da qual os pais não fazem parte, tem gente que ainda chama a sociedade brasileira de “machista” e diz que a mulher é “extremamente oprimida” na nossa sociedade!

Bom, fica aí algo pra refletir.

Até mais!

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